A conversa sobre bunny lines começou popular por um motivo defensável. As linhas que aparecem no dorso do nariz quando se enruga o rosto envolvem o músculo nasal transverso, uma musculatura fina, superficial e bem mapeada. A toxina botulínica registrada na Anvisa tem, sim, comportamento previsível nesse território específico. Em Casa Forte, onde meu consultório atende, é um dos pedidos que mais chegam depois que a paciente vê a própria foto rindo. Concedo o ponto antes de discutir: existe fundamento técnico real por trás da indicação. O problema não é o procedimento. O problema é o critério com que ele é oferecido.

Por Que a Ideia de Tratar Bunny Lines Com Toxina Faz Sentido

Vou defender a tese antes de furá-la. O músculo nasal transverso — a porção do nasal que atravessa horizontalmente o dorso do nariz — é uma das musculaturas mais previsíveis do terço médio. Ele é fino. Ele é superficial. Ele tem inserção mapeada em qualquer atlas sério de anatomia facial.

Quando uma paciente vem me mostrar a foto rindo e aparecem aquelas pregas diagonais no dorso, o que está acontecendo ali é mecânica pura. O nasal transverso puxa a pele para dentro no gesto de franzir. A toxina botulínica onabotulinumtoxinA, com registro Anvisa, relaxa a musculatura estriada por bloqueio da liberação de acetilcolina na junção neuromuscular. É o mesmo princípio farmacológico do tratamento do terço superior. Aplicado no músculo certo, na profundidade certa, a linha dinâmica cede.

Existe literatura consistente sobre isso há mais de duas décadas. Existe consenso técnico entre biomédicos estetas e dermatologistas sobre pontos de aplicação superficial no ventre do músculo. E existe, do lado da paciente, uma queixa real: a linha aparece na foto que ela ampliou no celular às onze da noite, ela não se reconhece, e vem pedir solução. Não é vaidade oca. É uma inquietação estética legítima.

Somo mais um ponto a favor. Bunny lines costumam ser a queixa que surge junto com o tratamento do terço superior — glabela, testa, pé de galinha. Quando a toxina é aplicada nesses territórios adjacentes, o compensatório muscular pode empurrar a atividade para o nasal transverso, tornando a linha do coelhinho mais evidente do que era antes. Nesses casos, incluir os bunny lines no plano é, tecnicamente, uma decisão coerente.

Até aqui, defendo. A anatomia autoriza. A farmacologia autoriza. A prática internacional autoriza. Se eu parasse a análise nesse ponto, o argumento estaria intacto.

Só que anatomia autoriza o procedimento em abstrato. O nariz da paciente à minha frente é que decide se ele deve acontecer.

Onde Essa Lógica Quebra no Nariz de Verdade

O nariz não é um plano cartesiano. Ele é uma peça tridimensional cheia de vasos, cartilagens e musculaturas que se sobrepõem umas nas outras. E é aqui que a conversa sobre bunny lines, quando conduzida pelo Instagram, começa a mentir por omissão.

Primeira quebra. O que aparece como "linha do coelhinho" nem sempre é atividade isolada do nasal transverso. Em muitas pacientes, o desenho é resultado de um trabalho conjunto do nasal com o procerus — o músculo que puxa a glabela para baixo — e com o levantador do lábio superior e asa do nariz, aquele feixe fino que vem do sulco lacrimal e insere no lábio e na asa nasal. Se a leitura clínica for preguiçosa e a toxina cair só no dorso, a linha pode até suavizar, mas a expressão global do meio do rosto fica desequilibrada. A paciente sai do consultório com uma sensação estranha que ela não sabe nomear.

Segunda quebra. Existe risco vascular concreto. A artéria angular — ramo terminal da artéria facial — sobe pela lateral do nariz em direção ao canto medial do olho. Ela não passa por cima do dorso, mas passa perto. Toxina não é preenchedor e o risco de embolização não é o mesmo, mas o cuidado com profundidade e ponto de entrada continua sendo obrigação de quem aplica. Uma agulha mal posicionada em território tão fino não é banal. E o mais grave: a difusão da toxina para músculos vizinhos pode gerar assimetria de sorriso, sensação de peso na asa do nariz ou, em pontos altos, ptose de sobrancelha.

Terceira quebra. E essa é a que mais me faz recuar. Nem toda linha visível no nariz é dinâmica. Uma parte considerável do que chega ao consultório como "bunny line" é, na verdade, uma linha estática — uma marca já impressa na derme por anos de fotoenvelhecimento, agravada por sol de Recife o ano inteiro, por praia, por trabalho ao ar livre. Toxina não corrige linha estática. Toxina relaxa músculo. Aplicar botulínico numa linha que já não depende de contração muscular ativa é gastar recurso, gerar frustração e sustentar, na paciente, a expectativa de que o procedimento "não funcionou".

Quarta quebra. A dose. O nasal transverso é pequeno e superficial demais para tolerar plano padronizado. Aplicar a mesma quantidade que se usa no terço superior é uma decisão que não sobrevive à anatomia real. Aqui, menos costuma ser o gesto correto — e "menos" só vira número na avaliação individual, nunca em fórmula genérica.

O Critério Que Eu Uso Antes de Aplicar Uma Única Unidade

Deixo minha regra pessoal explícita. Antes de considerar toxina para bunny lines, a linha precisa ser predominantemente dinâmica, o músculo nasal transverso precisa ser o protagonista da queixa, e a paciente precisa entender que o alvo é uma expressão específica — não uma estética global do nariz.

Traduzo em conduta. Diante do espelho, peço um gesto simples — franzir o nariz como se sentisse um cheiro forte. Se a linha aparece marcada nesse movimento e desaparece por completo em repouso, ela é dinâmica. Se ela permanece visível quando o rosto está solto, existe componente estático, e toxina isolada não vai resolver o que a paciente veio buscar. Nesse segundo cenário, discuto abertamente que o plano correto é outro — pode envolver bioestimulador para melhorar a qualidade da pele, hidratação profunda com ácido hialurônico não-preenchedor tipo skinbooster, ou, muitas vezes, fotoproteção séria antes de qualquer intervenção. Recife não perdoa: sol de manhã na frente do prédio, sol na volta da academia, sol acumulando desde a adolescência. A pele do dorso do nariz é uma das primeiras a marcar.

Segundo critério. Avaliação da participação do procerus e do levantador do lábio superior e asa do nariz. Se o desenho da linha claramente compromete esses vizinhos, o plano não é bunny line isolado — é uma leitura de terço médio inteira, com decisão sobre o que tratar e o que deixar de fora. Aplicar em um sem considerar os outros é a receita para o rosto ficar com aquela expressão travada que a paciente reconhece mesmo sem saber explicar.

Terceiro critério, e talvez o que mais me faz recusar. Morfologia do nariz. Pacientes com nariz curto, com ponta caída em repouso ou com hiperatividade do depressor do septo nasal têm o gesto de sorriso apoiado, em parte, nessa musculatura. Bloquear demais o terço médio pode acentuar a queda da ponta ao sorrir. O rosto perde uma característica que era da paciente, não um defeito. Nesses casos, prefiro o plano conservador, muitas vezes com aplicação mínima ou nenhuma aplicação no nariz — e alinho isso na avaliação, antes de qualquer decisão sobre agulha.

Quarto critério. Histórico da paciente com toxina. Se é a primeira aplicação da vida dela, bunny lines quase nunca são prioridade minha. O aprendizado do próprio rosto sob efeito da toxina é gradual. Introduzir mais um território de bloqueio antes que ela conheça a resposta do terço superior é acrescentar variável sem necessidade.

Quando a Aplicação Ainda É a Conduta Correta

Recuso mais do que aplico nesse território, mas seria desonesto dizer que nunca aplico. Existe a paciente cujas bunny lines são francamente dinâmicas, cujo nasal transverso responde de forma isolada ao gesto, cuja anatomia do terço médio suporta a intervenção sem custo expressivo, e que já tem experiência prévia com toxina em outros territórios. Nesse conjunto — que é mais estreito do que a rede social sugere — a aplicação tem indicação sólida, dose contida, e resultado coerente com o que a onabotulinumtoxinA faz de fato.

Existe também o cenário compensatório que descrevi antes. Quando a toxina no terço superior aumenta a atividade do nasal e a linha do coelhinho fica proeminente como efeito colateral do próprio plano anterior, incluir os bunny lines na revisão faz sentido técnico. Aí a decisão vem depois de ver o rosto em movimento, depois da toxina do terço superior ter estabilizado, e nunca no mesmo pacote apressado.

Fecho essa concessão de forma limpa. A regra que eu uso não é "não fazer bunny lines". A regra é: só fazer quando a anatomia da paciente à minha frente autoriza, quando a queixa dela corresponde ao que a toxina realmente resolve, e quando a recusa — se for o caso — é oferecida com a mesma clareza que a indicação teria.