A bichectomia é o procedimento cirúrgico que remove a bola de Bichat — uma estrutura adiposa profunda localizada na bochecha, com função estrutural na sucção, mastigação e suporte do tecido facial. Em 2018, o procedimento começou a viralizar no Brasil. Em 2022, era um dos três procedimentos estéticos mais buscados em redes sociais. Hoje, em 2026, vejo no consultório a outra ponta dessa onda: pacientes em arrependimento, buscando reverter o que não tem retorno.

Este artigo é uma posição técnica. Não é apologia conservadora nem condenação universal. É a análise honesta do que a literatura, a anatomia e a prática clínica mostram sobre uma cirurgia que ganhou popularidade muito mais por estética viral do que por critério médico.

O que é a bola de Bichat

A bola de Bichat (corpo adiposo bucal) não é gordura comum. É uma estrutura anatômica especializada com função fisiológica:

Em pacientes com excesso significativo desta estrutura, a bichectomia pode ser indicada. O problema é que esses casos são raros — e a maior parte das bichectomias realizadas hoje é em pacientes com volume facial normal ou até abaixo da média.

O paradoxo da idade

A maior crítica técnica à bichectomia popular é simples: o rosto envelhece perdendo volume. Aos 20 e poucos anos, a bola de Bichat dá ao rosto uma "bochecha redonda" que muitas pacientes consideram infantil. Removê-la entrega definição imediata — maxilar mais visível, contorno mais anguloso. Essa é a foto que viraliza.

O que não viraliza é o que acontece nos anos seguintes:

A bola de Bichat removida não volta. E o que parece definição aos 25 vira sulco aos 40.

Casos de arrependimento já ocupam consultórios de cirurgia plástica e harmonização facial pelo Brasil. A correção, quando possível, envolve enxerto de gordura ou preenchimento volumétrico — soluções incompletas para uma estrutura que não pode ser completamente reposta.

Por que a tendência cresceu

A popularidade da bichectomia tem três motores claros, e nenhum deles é primariamente médico:

Crítica técnica

O que viraliza nas redes é a foto do dia 7 — quando o edema pós-operatório ainda está totalmente reabsorvido e o rosto parece máximo "antes/depois". Os efeitos a longo prazo, no envelhecimento natural da face, raramente aparecem nos posts.

Quando a bichectomia É indicada

Sou contra a tendência — não contra o procedimento. A bichectomia tem indicação clara em alguns casos:

Esses casos representam, na minha estimativa baseada em literatura e prática consultorial, menos de 10% das bichectomias realizadas no Brasil em 2026. Os outros 90% poderiam ser melhor atendidos por outras estratégias.

O que faço no lugar

Quando uma paciente chega ao consultório pedindo bichectomia, a primeira pergunta que faço é: o que você quer alcançar?. A resposta quase nunca é "remover a bola de Bichat" — é "ter mais definição mandibular", "parecer menos arredondada", "ter um perfil mais marcado".

Esses objetivos podem ser atingidos com técnicas reversíveis e que respeitam a anatomia profunda:

Frequentemente, a combinação de definição mandibular + mento + masseter entrega o resultado que a paciente buscava com a bichectomia — sem retirada de estrutura essencial e com possibilidade de ajustes ao longo da vida.

Como conversar com quem quer fazer

Se você está considerando bichectomia, três perguntas valem antes de marcar a cirurgia:

Profissional sério dedica tempo a essas conversas. Profissional comercial entrega o procedimento que a paciente pediu, mesmo quando não é o melhor caminho. A diferença entre os dois não está no diploma — está na disposição de dizer "não" quando "não" é a resposta certa.

Posicionamento final

Bichectomia tem indicação. Em alguns casos específicos, é o procedimento certo. Mas é também um dos procedimentos estéticos com maior potencial de arrependimento a longo prazo — exatamente porque é irreversível e seu impacto se manifesta com o tempo, não no dia seguinte.

Recuso bichectomia em pacientes onde percebo que a alternativa reversível atende melhor. Encaminho ao cirurgião quando vejo indicação real. E explico — sempre — por quê.

Estética bem feita é estratégia de longo prazo. Não é a melhor foto do mês, é o melhor rosto da próxima década.